Eu Vou Comigo*
Tantas peles, tantos rostos. Nomes, jeitos, feitos, sons. Tanto nascimento. Tanto esforço pela permanência. Tanta expiação, riso, tanta verdade e nem sempre. Tanta vida, que só é sabida por quem dela é dono, para que em minutos serenos, lentos e calmos, mesmo quando vorazes, assassinemos o semelhante. Na alma. No fundo. Dentro. Na esperança e na fé.
Ela tem nome. Ele tem nome. E seus nomes serão esquecidos, após desejos consumidos, assim como os nossos também foram e serão. Nossa fome não se justapõe a piedade.
Suplantados. Imagens em sobreposição. Tantas camadas que não identificamos mais o verdadeiro traço. Transparências, uma sobre a outra se fundem e se transformam em outra coisa. Uma coisa que não se sabe o quê.
Eu não quero mais o que me é oferecido. Os presentes recebidos nos colocam contra nós. Eu vou comigo. É preciso conhecer a si. Investigar-se. Esmiuçar-se. Chegar ao centro e abandonar-se na certeza de que sempre vamos nos surpreender conosco. Somos um susto de nós mesmos. E a consciência do susto nos liberta. Nos mantêm aptos a aceitar, não o que nos é oferecido, mas nossos próprios quereres.
A minha escolha é querer o que ninguém sabe onde está, porque é sagrado e óbvio.
Ninguém entende o óbvio. O óbvio cega por sua simplicidade. E o sagrado… Ainda estão estudando sobre ele de forma mística. A mente humana busca o hermético porque não sabe o que fazer de si quando tudo está resolvido. Parece um gostar de ter o que fazer, mas na verdade ela não tem o que fazer.
Todas as coisas coexistem, mas todas existem de si. Uma flor não diz a um passante que ela lhe fará feliz. Seria abjeto, seria falso, no mínimo incerto. Mas uma flor pode tornar um passante feliz pelo cheiro que é dela.
*texto publicado na minha coluna da revista ‘Estação Aeroporto’.
OBS: A REVISTA PUBLICOU O TÍTULO DO TEXTO ERRADO E ESTOU POSTANDO AQUI CORRETAMENTE.

A gente já chega aqui apanhando, né? Não seria isso algum tipo de aviso? Volta, volta que lá é quentinho e tem tudo o que você precisa… Mas nãaaao… Crescer é sofrer (ELES dizem).
Whatever, que bom que existe(m) você(s), bons escritores, que nos ajudam a crescer por meio de reflexão e bons textos. E bons textos são pequenas felicidades quando os encontramos.
Besos!
Comment by Rodrigo — December 8, 2008 @ 8:23 pm
Sim, o necessário não precisa ser mostrado ou dito, mas simplesmente oferecido, dado, sentido.O que se dá não se pega de volta, de forma alguma, nem a favor, nem contra. O viver de cada um é uma extensão do seu ser, só contamos conosco, e só nós conhecemos o caminho, porque é nele que fizemos nossas escolhas. Gosto disso “eu vou comigo”. Valeu Larissa! Sua reflexão sempre nos enriquece.
Comment by Margareth — December 8, 2008 @ 9:38 pm
Soooooo DEEP! Essa é Larissa Poeta. Parabéns pelo blog. E a propósito: adorei a dica de filme. Verei. Beijo
Comment by Davi Paes e Lima — December 8, 2008 @ 9:42 pm
Sobre o texto acima, como mané que sou, eu colocaria a mão no queixo, esticaria meu indicador sobre a porção mediana dos lábios, alcançando a ponta do nariz como quem reflete e diz: “posagora”. Releria “Eu Vou Comigo” e boquiaberto diria: “posintão”…Com uma vontade imensa de gritar “Eu Vou Contigo” tamanha a beleza e profundidade do texto. Pode-se ler em cinco minutos mas preciso é muito mais tempo para refleti-lo. Vou parar por aqui porque não haveria sentido parafrasear algo tão bonito e elegante quanto “A mente humana busca o hermético porque não sabe o que fazer de si quando tudo está resolvido”. Mais uma vez, parabéns Larissa!
(Nilson Octávio)
Comment by Nilson Octávio — December 8, 2008 @ 10:05 pm
Muuito Profundo,
Uma Divagação entre o Real e o Imaginário.
Realista, Individualista e Místico.
Retrata que Exatamente ao Contrário do Certo,
Ainda Falta Alguma Coisa…
Analisando Melhor, é Solitário.
Linear mas Procura o Holográfico
A Eterna Dicotomia Humana:
Enquanto o Coração diz uma coisa a Razão Diz Outra !
Visa a Liberdade, à Prisão dos Presentes e Agrados.
Critica o Misticismo, mas Procura Nele Um Caminho !
BJSSS
Comment by Fernando Paganella — December 8, 2008 @ 10:40 pm
Sua reflexão poética corre para o mesmo rio que O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro. Caiu-me como uma luva pois estou há algum tempo tentanto simplificar minha vida, ver uma flor apenas como uma flor e apenas com os predicados inerentes de uma flor, sem muita simbologia por trás. Gostei muito !!!
Um beijoooo,
Chico
Comment by Assis de Mello — December 8, 2008 @ 11:09 pm
“Chegar ao centro e abandonar-se na certeza de que sempre vamos nos surpreender conosco” Não creio que nos surpreendemos com nós mesmos, a não ser quando queremos brincar de nos enganar, mesmo que por segundos apenas. Mas isso é outro papo, né Poeta? Bom, de qualquer modo, sigo comigo mesmo.
Comment by Kidy — December 9, 2008 @ 3:12 pm
Adorei! Lindo texto, realmente teu talento está amadurecendo
junto contigo, como o vinho, encantadoramente encorpado,
e sempre mais gostoso com o passar do tempo.
Beijos azuis!
Comment by Kátia Maria de Paula — December 9, 2008 @ 5:57 pm
Demais, Poetinha.
Esse óbvio é a energia da alma. É claro que é místico, pois eese óbvio é regido pelo espírito para direcionar a matéria.
Adorei o título. Eu também vou comigo. Mas não deixaria de ir contigo…
Excelente. Coloca a espiritualidade no cotidiano. E vice-versa.
Parabéns
Beijos
Comment by Luiz Carlos Schneider — December 9, 2008 @ 7:34 pm
Muito original!
Larissa, mais uma vez mandando bem nas palavras e deixando além da mensagem, que o leitor fique pensativo..
Eu vou comigo é demais! Na verdade tens toda a razão, pois cada pessoa sabe de si e geralmente pode cofiar hehe
“A minha escolha é querer o que ninguém sabe onde está, porque é sagrado e óbvio.” Nossa, parace que estou te lendo nessa frase!!
Parabéns dígna!
Comment by Mircala F de Freitas — December 10, 2008 @ 2:52 am
Ai, minha Santa Paciência! E não é que a Poeta, de novo, tem razão? Com aquele jeitinho de quem não quer nada, ela filosofa com tanta poesia - dura, às vezes, porque verdadeira - que amolece o coração de quem lê mas aguça o pensamento e faz refletir…Eu já entendo esta mente copiosa de saberes: ela simplesmente vê o que é, vive o que pensa e é fiel a si mesma… Simples? Rsssss… Vamos tentar prá ver se conseguimos??? PARABÉNS, LPM, to ficando até cansada de te parabenizar. Vou ter que tomar energizante prá continuar te lendo e te entendendo! Antes que eu esqueça: PRÁ VARIAR, TÁ LINDO, sua poeta-filósofa danada!
Comment by Magda — December 11, 2008 @ 1:07 am
Hum, voltei porque TINHA que falar isto: comentários absolutamente geniais por aqui, nossa! Rodrigo, menino-fantástico, nunca espararia mens dessa tua mente prodigiosa. Te amo.
Otávio, maravilha. Pela segunda vez tenho que te reler, porque vale a pena!
Comment by Magda — December 11, 2008 @ 1:16 am
Pra mim, “Eu vou comigo”, me passou talvez a idéia de que o óbvio seja o sagrado. O óbvio quando não dito não se faz notado, mesmo assim traz conforto, e por isso tão sagrado.
To meio tonto, muita informação pra minha cabeça no momento, é que essa coisa de férias me fez esquecer como que se pensa. hehe. Adorei o texto.
Sagrada, eu vou contigo…
Murilo Kinchescki
Comment by Murilo — December 12, 2008 @ 10:45 pm
Quem começar a leitura do EU VOU COMIGO pelos comentários, se encanta com a multiplicidade de jeitos de sentir a Larissa e suas extremas-unções, seus suspiros ensurdecedores de poetagênia que cansou de esperar que tudo seja logo como deveria ser desde sempre.
E ela não escreve para a VEJA… Por isso, a VEJA eu LIA.
Comment by Pedro — December 13, 2008 @ 12:59 am
Oi Larissa. Que bom que nos encontramos entre carnes e agora, entre virtuais espaços hehehehe, lindo seu site,adorei, falta só um cafezinho, pra se deliciar, heheh, já fui buscar o meu e estou me deliciando aqui ehehehe, vamos nos ver mais ne?tens orkut?bjaooooo ryana
Comment by Ryana Gabech — December 22, 2008 @ 11:01 am
a propósito…somos um susto e um elixir, uma serpente ou uma maçã….somos tudo..amei texto. bjo Ry
Comment by Ryana Gabech — December 22, 2008 @ 11:03 am
Larissa…sabes que adoro ler, e teu texto me lembra algo q li… “pessoas originais têm convicções e são leais a elas mesmas!” Legal ler teus textos!!! “Eu vou comigo” me parece um processo de maturidade admirável. bjssss
Comment by CLAUDIA RIFFEL — December 31, 2008 @ 12:31 am
É notável a forma como concebe a pura poesia que existe em si. Genial mesmo.
Os segredos femininos, como gostaria de os perceber?
São belos, ternamente expressos num maravilhoso e deslumbrante sentir.
Doces. Muito doces.
Vejo nas mulheres algo de fascinante que tão bem expressa.
Que seria de nós homens?
Parabéns sinceros.
Comment by Meira Júnior — January 23, 2009 @ 8:45 am
Muito bom teu texto! Eu vim conhecê-la agora, de blog em blog, e… rolou uma Identificação. Você mora onde? Enviei um convite ao seu email, mas reforço aqui: http://www.xxipoetasdehjemdiante.blogspot.com/
Abraço
Comment by Priscila — April 8, 2009 @ 3:07 pm